quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Perdido

Caminhei louco e lírico, e olhei com surpresa e incredulidade. 

Existia. 
De fato, existia.

Naquela tarde atravessei portais que me levaram a dimensões obscuras da realidade. Véus ao chão, realidades despetaladas, expostas e nudas. Eram medos mentirosos. Toquei a campainha. Caronte abriu gentilmente e em silêncio nos convidou para entrar. Todos dentro do cubo negro. Silêncio torturador e também mentiroso. A água invadia nossos sapatos por debaixo da porta. Gelada e molhada e brilhante -Será que eu estou mesmo me molhando ou apenas criei na minha cabeça este momento? - Já não sei o que é verdade - sentia o cheiro do preto e começava a enxergar a música que invadia minha mente - máquinas trabalhavam e eu sentia seu gosto. Amargo. Não muito, o suficiente para sentir o gosto das cores anunciadas e esperadas. Louco sonho depravado. Entrei de cabeça.

Dancei e viajei através de um portal para um mundo gasoso. A realidade não se via com clareza, os olhos ardiam, as vozes vinham de todos os lados. Espanhol e francês e inglês e por fim português. Não era possível enxergar as pessoas com quem você conversava - vozes e ecos ocupavam a sala e a fumaça decorava o ambiente - Escutei um sotaque marroquino. Acendi um cigarro e fechei os olhos - a fumaça me fazia chorar e o gosto do tabaco me fazia tossir - minha pressão caía - meu peito voltou a apertar e se fez um motim no meu coração - meus sentimentos queriam destronar meu cérebro, queriam um bouquet da flor da pele - Saí dali. 

Chega de fumaça na alma. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Paris

O vento canta
As folhas caem
E os passos seguem cegos

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Ex-Crevo

Escrevo para que as pessoas possam conhecer.

Eu escrevo porque me descubro a cada linha,

Escrevo para traduzir nas palavras o que internamente não resolvo.

Escrevo para que as pessoas saibam que há mais além da carne.

Escrevo para que eu possa me conhecer.

Escrevo para provar que existi.

Escrevo no mundo para gravar minha passagem.

Escrevo porque amo.

Escrevo para me transformar.

Escrevo para ser eu mesmo.

Escrevo porque viver não basta.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Marginalidade Afetiva

Houveram dias em que achei que não viveria longe de tal ou tal pessoa.

Acho muito louco como as pessoas mais importantes da minha vida não são as mesmas ao decorrer dos anos.

Acreditei em laços imortais, em amizades e amores infinitos. Acreditei na eternidade de palavras pronunciadas, mas o que então seriam palavras ditas senão apenas som, vibração de cordas vocais e emissão sonora sem nenhum atestado de eternidade, fora a memória. Mas a memória não mantém pessoas por perto.

 A memória só serve para lembrar que um dia já fui íntimo de estranhos.

Pela janela pensei: tantas vozes já passaram na minha vida, algumas ainda passam, outras ainda estão e algumas desejei que fossem embora - eu mesmo tratei de passar em suas vidas, mas sinto que não faço parte de nenhuma, sinto que estou sempre transitando, sempre estou aos arredores de muitas vidas. À margem.

Marginal.

Tiveram pessoas que fiz questão de passar sem deixar rastros e em ironia houveram pessoas que eu não quis que se fossem, pedi para ficar, me dei de bandeja, mas de nada serviu.


- Fica, eu aceito qualquer situação - dane-se o ego - eu só quero você - mas de nada serviu. - Agora eu vou - De fato você não me quer. Adeus.


Mas não deve doer. As coisas passam, as dores passam, as alegrias passam, as pessoas passam.

A magia dos caminhos que se cruzam.

Me fascina imaginar que de tantas pessoas no mundo, de tantos lugares e esquinas e bares e copos nós nos conhecemos. Nos cruzamos e nos apresentamos. Por mais longa ou curta que esta conexão dure, é mágico. Conhecer um outro ser, poder descobrir seus gostos e desgostos, anseios e preguiças.

E pode acontecer de dar certo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Jornada

Amo sem limites.

Amo sem data de validade.
Amo hoje e posso não amar amanhã.

Mas amo.

Amo tudo de uma só vez. Desejo tudo ao mesmo tempo.
E as vezes, é possível amar tudo de uma vez só.
E tantas outras é necessário anos para se amar por completo.

Uma noite ou um ano, quem é você para julgar o sentimento?

Vivo com tudo!

Algumas jornadas são mais curtas que outras, mas o prazer do desbravar é sempre o mesmo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Claraboia

Que saudade,
E que vontade.

Que segredo,
E que medo.

Sinto que falta coragem,
E sobra receio.

A possibilidade da dor do não,
É maior que a vida nas sombras da eterna dúvida.

Enquanto não penso em uma solução,
Espero o céu abrir após a chuva.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Vou

Queria entorpecer meu corpo,
Permanecer um louco,
E te amar um pouco.

Imaginar venturas,
Pesquisar loucuras,
E embebedar nas alturas.

Nos teus olhos verdes,
Na tua pele alva,

Queria amar e não acordar.